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Reflexões sobre o cinema alternativo

Eu Existo – Jestem

O filme polonês Jestem (Eu Existo) traz uma trama simples, porém forte, sob o olhar delicado e minucioso de Dorota Kedzierzawska. Conhecemos por meio do filme, a história de Kundel, um garoto que foge de um orfanato e volta para a sua casa, onde sua mãe ainda vive, mas sem lhe dar muita atenção. Ao encontrar a mãe na cama com um homem desconhecido, Kundel foge outra vez e começa a viver sozinho em um navio abandonado, ancorado na beira de um rio. Ele luta contra a fome e contra o frio, e é esporadicamente auxiliado por uma garota que mora em  uma abastada casa perto do rio, com quem desenvolve um forte laço de amizade. Apesar da trama simples, o filme de Dorota Kedzierzawska é rico na sua composição de imagem, na fotografia, na música e nas atuações, e em cada uma dessas qualidades, mostra-se à beira da perfeição.

Desde o princípio, podemos perceber que a diretora aposta nos choques dualísticos para garantir força ao filme. A composição da postura do personagem é  o meio: tem a ingenuidade infantil do olhar e do nariz fungando em contraponto ao caminhar, aos movimentos e a serenidade adulta. O retrato de Kundel é extremamente Caulfieldiano. No início do filme, declama uma poesia na qual expressa a saudade do eu lírico de um mundo onde havia mais altruísmo e sinceridade. Ele próprio não sabe explicar a poesia, mas diz que “a sente”. Enquanto declama, há um embate de imagem dele contra todos os seus colegas e os adultos que o assistem, de frente com ele, aos risos, como se não houvesse qualquer compreensão ou paciência para com os valores pelos quais o garoto clama.

A estética de “choque” vai além: Quando, após fugir do orfanato, reencontra a mãe, busca nela o amor baseado no carinho materno, ao passo que a necessidade dela é a de um amor erotizado (ela procura isso nos homens com quem dorme). Durante o abraço de Kundel e sua mãe, ela – aparentemente embriagada (ou louca) – brinca com ele, agarra-o, joga para o lado, enquanto desfaz-se de suas roupas. Numa outra sequência, ele encontra um grupo de garotos da sua idade usando drogas, em uma galeria. Ao fugir, deixa cair um saco de bolinhas de gude – É o momento em que há o embate e a perda de todos os valores que deveriam estar instituídos na infância. Além disso, há o cenário, que de um lado expõe o barco sujo e velho e do outro a mansão onde Kuleczka, a garota que ajuda Kundel, mora. Kuleczka também é uma anamorfose da infância: Ela sempre aparece bêbada, pois a lucidez a lembra de que não gosta de si própria.

Enquanto está no orfanato, a imagem de Kundel é vista por trás de um alambrado, numa composição que lembra muito Os Incompreendidos, de Truffaut (embora nesse último, a função seja outra, mais ligada aos princípios de necessidade de transcendência da Nouvelle Vague). Mesmo depois da sua fuga, essa composição é mostrada constantemente, reforçada por sequências onde o menino caminha em corredores apertados ou escuros, como que na obsolência no espírito livre da infância, Kundel já tivesse adquirido a ciência do aprisionamento a qual o homem submete-se no mundo.

A fotografia trabalha tons envelhecidos, quase um sépia. A natureza, que compõe quase majoritariamente o cenário, mostra-se na estação do outono. Ambos conceitos (a cor amarelada e as folhas caídas) traduzem a ideia daquilo que se perde no tempo (ou, no caso do filme, o que se perde da infância). O espaço, de uma beleza deslumbrante, contrasta com o lixo no qual Kundel busca abrigo e sustento. Com o conflito entre aquilo que é e o que deveria ser, Dorota Kedzierzawska cria não apenas uma história sobre o abandono infantil, mas também uma fábula que contesta se os valores impostos pela família, pela sociedade e pelas autoridades são de fato válidos ou funcionais. O filme, além das qualidades que demonstram a competência da diretora em seu “fazer Cinema”, é bastante poético e sensível. Vale a pena assistir para tentar encontrar esses questionamentos, essa estética ou contestá-la! Recomendado!

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2 comentários em “Eu Existo – Jestem

  1. Eliana
    out 2011

    Um soco no estomago de indicação pro dia das crianças. parabéns pelo texto!

  2. Pingback: Hora de Morrer – Pora Umierać « Videocassete | Rebobine Antes de Sair

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