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Reflexões sobre o cinema alternativo

Slovenian Girl – Slovenka

A despeito do não pleno reconhecimento de sua obra, o cineasta esloveno Damjan Kozole (indicado ao Urso de Ouro em 2003,  por Rezervni Deli)  deveria sentir-se orgulhoso dos seus filmes. Ao passo que uma enxurrada de melodramas sociais tomam conta do cinema do leste europeu, o diretor consegue conduzir, de forma ébria e impactante, o filme Slovenian Girl, que recebeu o título de melhor filme europeu de 2010 pela European Film Academy.

O filme conta a história de Alexandra, uma jovem estudante universitária que, para pagar as contas das quais não consegue escapar, começa a prostituir-se sob o apelido de Slovenian Girl. Fluente na língua inglesa, aproveita-se para manter relações sexuais com funcionários do Estado de outros países (que estão constantemente indo para conferências na Eslovênia, uma vez que o país acabou de assumir a presidência da União Europeia). O filme começa com um dos programas de Alexandra, com um velho alemão, membro do parlamento europeu, que começa a ter um ataque cardíaco após ingerir várias cápsulas de Viagra. O velho morre e a polícia começa a seguir os rastros de Alexandra, que, como mantém sua vida dupla em segredo, prefere fugir e não depor sobre o caso. Ao longo do caminho, ela tem de lidar com inúmeros obstáculos, além da perseguição da polícia, como uma dupla de cafetões que tentam chantageá-la para fazer dela uma escrava da prostituição, a vida acadêmica na qual ela precisa resolver-se e as relações familiares com o seu pai. Essas dificuldades desdobram-se ao longo da narrativa, enquanto Alexandra mostra-se uma heroína sem possibilidades de fuga.

O que chama a atenção no filme é que logo na primeira sequência ele enaltece que o país assumiu a presidência do Conselho da União Europeia (que é rotativa, semestralmente). A partir daí, Damjan Kozole tece uma ácida crítica política quando trabalha o povo esloveno, fragilizado ao lado dos inúmeros representantes dos demais países da UE, hospedando-se em hotéis de luxo e andando em carros finos. O apelido que o diretor dá à Alexandra, “Slovenian Girl” não é por acaso. Em todas as construções que o diretor faz, ao longo do filme, ele trabalha um reflexo do seu país na garota (ou vice-versa). O que ele quer mostrar é a prostituição dos países emergentes da Europa diante dos requisitos e dos gastos com a afiliação à União Europeia. Para o país, essa relação faz-se por necessidade, mas ele acaba sendo prejudicado pelo abuso dos demais. Vale perceber que ao longo do filme, as relações sexuais de Alexandra são com alemães, italianos, ou chefes de outros países. Na diegese fílmica, inclusive, há o lamento de um dos personagens acerca da falta de dinheiro no país, que está indo todo para a UE.

Outra correspondência importante para a articulação dessas ideias é a posição da polícia eslovena diante do caso da jovem. Eles procuram por ela, ainda que a morte com a qual ela está envolvida tenha sido provada como de cunho natural. O que importa não é “como morreu”, e sim “quem morreu”. Quando Alexandra tenta, desesperadamente, chamar a atenção da polícia, por estar sendo perseguida pelos cafetões, o carro passa reto, sem sequer percebê-la. Ao longo da história, há vários planos com o alto som das sirenes, de motocicletas e carros de polícia escoltando os carros onde os representantes estrangeiros deslocam-se. – Além do desvio do dinheiro, há também um desvio de serviços – toda a segurança para os chefes de estado, mas nenhuma para o povo.

No universo único de Alexandra, ela precisa manter-se em equilíbrio no meio das inúmeras perturbações que a cercam: acadêmicas, financeiras, sexuais ou familiares. O filme, logo, não assume uma forma definitiva no que se diz ao seu gênero. Apesar do seu plot sugerir uma gama de cenas onde a sensualidade é explorada ao máximo, o filme não assume esse tom. Assim como também não assume um tom totalmente focado no drama das relações da garota, com seus amigos e sua família e também não se discorre na forma de um thriller de perseguição. O filme é uma ligeira mensuração de cada um desses fatores. Ele não peca, portanto, no exagero. E mesmo com a diversidade de conflitos na narrativa, ele não fica atribulado. É, inclusive, um filme bastante silencioso. O objetivo de Alexandra não é conseguir sair da prostituição, ou ter sucesso nela, ou dar uma vida decente ao pai, tampouco passar na universidade. O objetivo da garota é mais existencialista – ela precisa resolver-se consigo própria, a despeito das tensões que a cercam. Com a distância nas relações interpessoais e os diálogos que não se completam, o diretor mostra que o que os temas que lhe importam não são do tipo do acaloramento sexual,  e sim a vida debilitada do povo do seu país, o universo problemático que cerca a garota – não por culpa própria, e sim por culpa das políticas que regem a sociedade na qual está inserida.

O ritmo do filme é inconstante, mas é bem demarcado ao longo da sua extensão. As culminâncias do enredo, os momentos de tensão, estão muito bem posicionados na história, de forma que a narrativa, ainda que sutil, consiga prender a atenção do espectador e fazê-lo ficar apreensivo para o que virá a seguir, ao lado de uma câmera segue, em muitas sequências, o caminhar da garota, quebrando o eixo para o que acontece ao redor dela, instigando a sensação de perseguição.

O filme vale muito a pena ser assistido, com certeza irá agradar uma gama de público ampla, e está circulando em alguns circuitos de cinema pelo país.

Site da distribuidora.

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Um comentário em “Slovenian Girl – Slovenka

  1. luiz
    maio 2012

    Excelente Análise…

    O filme está sendo exibido em salvador.

    Ainda está com estreia pedente para Rio de janeiro, Brasília, Porto Alegre e Florianopolis.

Aqui é seu espaço. Sinta-se a vontade!

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