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Reflexões sobre o cinema alternativo

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Para os que ainda pensam que o cinema nacional se resume a filmes sobre favelas ou comédias com estética de novela, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo pode surpreender. O road movie experimental de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (O Céu de Suely) conta, de forma simples e poética, a história de José Renato, geólogo que tem que atravessar o sertão nordestino para avaliar a possibilidade da construção de um canal, e por isso ficará 30 dias longe de casa.

Três aspectos chamam atenção no filme: é uma obra de ficção que foi produzida com fotografias e sobras de vídeo e película do material captado para um documentário; durante todo o filme temos a visão subjetiva do protagonista; uma narração em primeira pessoa que garante unidade a esses elementos.

Certamente, o custo da produção não foi alto, já que as imagens estavam prontas. Prova de que não é necessário um grande orçamento para fazer um bom filme, mas antes disso, uma grande ideia. E o fato de as imagens terem sido captadas para um documentário confere ao filme uma veracidade única. O próprio José Renato é muito humano, verossímil. Estamos sempre no limite entre a ficção e a realidade.

Quanto à câmera subjetiva, é verdade que não é o primeiro filme a utilizar esse recurso, mas os planos escolhidos, que a princípio servem para nos colocar efetivamente no mundo do personagem (a ausência de pessoas no início revela a solidão em que José Renato se encontra e a falta de ação, a monotonia que é sua vida), aos poucos parecem ganhar vida própria para contar a sua história (como na sequência em que Renato entrevista uma garota de programa, e ela lhe fala sobre seus sonhos). O ritmo lento em momento algum prejudica o filme, que tem curta duração (72 min), medida certa para que o longa não se torne cansativo. E quando José Renato avança na estrada e descobre mais sobre si, a sucessão dos planos fica um pouco mais acelerada.

Talvez a narração em off seja o mais delicado dos três aspectos, visto que esse tipo de recurso não costuma ser bem aceito pela crítica cinematográfica. Mas o ator Irandhir Santos, que empresta a voz a José Renato, a conduz com muita sensibilidade, e atinge um equilíbrio perfeito. A certa altura do filme temos a impressão de conhecer Renato e sua Galega, embora nunca os tenhamos visto. Além disso, o texto é muito bem escrito. Os comentários do geólogo, que apenas outro geólogo entenderia, são sempre finalizados com uma observação pessoal, e aos poucos as falas técnicas perdem o espaço para as reflexões de José Renato, quando ele ganha de vez o espectador.

Entre algumas frases marcantes do filme, temos “todo relacionamento é perfeito, até que acaba”, que é seguida por “aprendi a gostar das flores tanto quanto das falhas geológicas”, numa clara referência ao seu próprio casamento (ele é geólogo, e sua esposa, botânica), mas que pode ser aplicada a outros relacionamentos também. Estar com alguém é aceitar as “flores” e as “falhas” que vêm com essa pessoa. Da conversa com a garota de programa, além da definição da “vida lazer”, podemos destacar “é triste gostar sem ser gostado”. Assim, fora de contexto, parece ser uma constatação muito óbvia, sem valor algum. Mas a sinceridade com que é falada nos toca profundamente.

A trilha sonora também foi muito bem escolhida, com letras românticas coerentes com as ilusões e desilusões de José Renato. (aqui peço licença para escrever em primeira pessoa: confesso que nunca gostei de música brega ou sertaneja, mas que bom que a diversidade existe. É difícil pensar em outro tipo de música para contar essa história).

No final, percebemos que Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é um filme sobre autoconhecimento, e também conhecimento sobre o outro. Enquanto descobrimos a verdadeira história de José Renato, ele abandona sua pesquisa geológica e passa a investigar as pessoas que estão ao seu redor. É também um filme sobre amor, ódio, solidão, mas acima de tudo, um filme sobre libertação e renovação – tanto de José Renato com sua própria história, quanto do ponto de vista da linguagem  cinematográfica.

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7 comentários em “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

  1. É verdade que filme brasileiro em grande maioria é uma bela bosta, com exceção de “O Homem do Ano”, “Meu nome é Jhonny”, “Tropa de Elite” e por ai vai.
    É complicado acreditar em um bom filme com tão pouco orçamento, mas vamos ver. Existem algumas produções independentes que se destacam.
    Mas vamos ver…Um filme sobre autoconhecimento…Um bom tema, quem sabe.
    Ótimo texto, parabéns!

    • mevassalli
      jul 2012

      Obrigada pelo comentário Reinaldo.
      Também gosto dos filmes que você citou, embora eles trabalhem com uma linguagem diferente da linguagem de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.
      Se assistir ao filme, volte para dizer o que achou.

    • Heloisa S.
      dez 2012

      O cinema brasileiro tem seus méritos e desméritos, assim como qualquer outro. Se sairmosdas salas de cinema que costumamos encontrar e procurarmos um pouco mais, veremos que tem sim filmes de qualidade, e não são poucos. Apenas procure.

  2. Fafá Barbosa
    nov 2012

    Fiquei instigada a ver esse filme. Gosto muito dos nacionais e esse me parece interessante.

  3. ramiro quaresma
    jan 2013

    Viajo…. foi abertura do Amazônia Doc 2 em Belém, foi lindo ver o filme numa tela gigante. Depois baixei pra ver em casa passar para os amigos que ficam maravilhados. A linguagem hibrida entre o doc, a ficção e o videoarte tornam o filme inclassificável para as “listas” tradicionais e imprescindível de vivenciar essa experiência.

  4. ana
    jan 2013

    ramiro, por favor, vc onde vc baixou? na verdade, estou procurando para comprar e não acho! (só na amazon, em espanhol!!!!!)

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