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Reflexões sobre o cinema alternativo

Colorful – カラフル

Na maioria das vezes em que se pensa em animação japonesa para o cinema, o que vem à mente é o Studio Ghibli, que deu asas às criações fantásticas de Hayao Miyazaki. E apesar da grandiosidade do trabalho de Miyazaki, é contraditório pensar nesse viés, já que podemos considerar o Japão como a maior fonte do mundo de boas produções cinematográficas no gênero da animação – com inúmeros estúdios, diretores e roteiristas. Infelizmente é o nosso mal ocidental, uma vez que o Studio Ghibli tem sua distribuição por aqui pela Disney e seus filmes são os que aparecem para os prêmios da Academia, fatores que sem dúvida, conferem ao estúdio certa visibilidade.

Fora desse cenário mainstream, um diretor prolífico que se destaca é Keiichi Hara. Em 2010 lançou Colorful, animação fruto do trabalho de cinco anos, baseada no livro do romancista e mangaká Eto Mori. Colorful conta a história de uma alma que chega ao céu, sem lembrar-se do seu passado na Terra, sabendo apenas por intermédio de um guia (ou anjo) – Purapura – que sua vida foi tomada por pecados e coisas terríveis. Entretanto, Deus lhe deu uma segunda chance de voltar, reencarnando temporariamente no corpo de um garoto que cometeu suicídio, tomando o espaço da alma condenada do jovem. Assim acorda na cama do hospital, no corpo do garoto Kobayashi Makoto, milagrosamente, após ser dado como morto. A partir daí, o novo Makoto precisa lidar com a família e os amigos totalmente desconhecidos. O irmão mais velho é extremamente egocêntrico e nunca se deu bem com Makoto, por esse não ser tão inteligente quanto ele. O pai é uma pessoa calma, bondosa, e sempre é passado para trás no trabalho, acabando como um fracasso profissional. Sua mãe vive em depressão e tem saído às escondidas com seu professor de dança. Com uma família tão conflitante, acompanhada do fracasso social na escola, o novo Makoto compreende a desistência da vida do garoto anterior, absorve suas preocupações, e assume um ódio, atípico do antigo Makoto, contra aqueles que o cercam – inclusive contra Purapura, que não orienta-o tanto quanto deveria e colocou-o no corpo daquele garoto medíocre.

Mais até do que compreender os outros, Makoto precisa compreender a si mesmo – seu corpo e a vida que levou – é um total desconhecido para a sua própria alma. Do pouco que sabe sobre o garoto, algo é que era um exímio desenhista – e então passa o tempo todo na frente da “sua” pintura inacabada (um cavalo solto em uma imensidão azul), tentando relaxar e, ao mesmo tempo, conhecer a si próprio. O tempo passa e o ódio que tem pelos demais perdura, ao mesmo tempo em que sabe que sua estadia na Terra terminará em breve e o Makoto deixará de existir para sempre, sem que ele tenha feito nada para que as coisas mudassem ao seu redor.

A animação é carregada de reflexão filosófica, sobre estar em um lugar ao qual não pertence, às questões hamletianas do ser e não ser (fazer ou não fazer) e, principalmente, sobre qual é o valor da vida – por que a vivemos, no meio dessa loucura, se é tão mais fácil e menos duro deixá-la de lado? Entretanto, ao passo em que o melodrama jogaria essas questões para o espectador numa bandeja explícita de imagens, informações e atuações, em Colorful, temos aquele toque do Cinema japonês, herdado possivelmente de Yasoujiro Ozu, trabalhado sobre uma estética limpa, calma e simples – uma estética que mostra-se inocente ao mesmo tempo em que consegue aprofundar-se naquilo que pretende explorar. Sua dramaticidade chega a ser angustiante, ainda que não saibamos explicar como a história consegue causar toda essa perturbação.

De todas os detalhes do filme, o único que não se justifica perante a qualidade global da obra é a trilha sonora, pontuada em um fraco trabalho de piano. Entretanto, ainda assim ela ascende em alguns pontos chaves da história, trazendo aquela bela sensação de termos ganho um enorme presente. O trabalho com o desenho é sutil, e cabe perfeitamente à história – Além do que, em algumas partes, transcende e coloca diante do espectador uma fantástica pintura. Além disso, a calmaria da estética ajuda a reforçar a naturalidade e a veracidade de cada um dos personagens, com características bem únicas.

Apesar da suave visão moralista que a animação assume, o seu tom permite ainda a reflexão acerca da filosofia que propõe. Além disso, a história possui uma beleza capaz de encantar mesmo aqueles que ainda não tem contato com o cinema e a animação oriental. Um ótimo filme, que consegue tocar públicos de quaisquer idades.

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4 comentários em “Colorful – カラフル

  1. João
    nov 2012

    Sensacional!!!!! Animação muito bem concebida.

  2. Victor
    nov 2012

    Existem belíssimas animações japonesas. Pena que elas são praticamente desconhecidas para quem não acompanha.

  3. Marco
    nov 2012

    o japão é muito forte em animação mesmo, principalmente nas séries de animes.

  4. Zetrusk
    nov 2012

    Incrível, aliás em desenho, os japoneses são feras, não creio que a trilha sonora seja ruim, só um pouco calma, quero assistir para conferir.

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