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Reflexões sobre o cinema alternativo

Em Outro País – 다른 나라에서

Desde os primeiros minutos, Sang-soo Hong, em seu novo filme – Em Outro País, confunde-nos quanto àquilo que é e o que não é real. Ou talvez tudo seja real, e é apenas uma questão de visão. Não começamos com a história de Isabelle Huppert, que centraliza as tramas do filme. Começamos com a história de mãe e filha coreanas, que estão (possivelmente escondidas) em um hotel por conta de algumas ilegalidades em que se envolveu o tio. A filha, desconfortável com a situação, decide escrever um roteiro de cinema para relaxar. E é esse roteiro que o diretor coloca diante dos espectadores pela uma hora e meia que vem adiante.

A história é sobre Anne, uma francesa interpretada por Isabelle Huppert, que hospeda-se em um hotel perto da praia, em Mohang, na Coréia do Sul. Na verdade é sobre três Annes, três francesas, em três diferentes arranjos de história. Quando a história chega ao fim, ela volta, trazendo uma nova Anne ao país – e visualmente, a única coisa diferente entre as três é a roupa que veste. Os personagens ao redor também se repetem, mas esses são sempre os mesmos – a única coisa que muda é a relação que eles já tinham estabelecido com a personagem de Isabelle Hupert. Ou seja, enquanto a jovem atendente do hotel porta-se da mesma forma diante das três Annes; o casal coreano que no começo conhecia a francesa de longa data e, em seguida, tinha acabado de conhecer, porta-se ligeiramente diferente – mas no final, é tudo uma questão de tempo para que as coisas tornem-se as mesmas.

O cinema está presente nas três histórias, sempre há um personagem cineasta envolvido – numa delas, é a própria Anne. De qualquer forma, o que o Sang-soo Hong expõe no filme, através das três casualidades, é a dificuldade do ser humano em encontrar a si mesmo. É essa a essência geral da trama: A personagem principal está em outro país, em um lugar à qual não pertence, e isso é constantemente lembrado pelo filme pela dificuldade que ela tem em pedir informações a um salva-vidas. Perdida em uma teia de relacionamentos infiéis, a heroína olha ao seu redor constantemente com estranheza. Esse olhar de quem está em um lugar a qual não pertence está nos dois níveis da trama – lembremos que a personagem que escreve a história de Anne também está desconfortável em um hotel, longe de casa. É essa procura por si mesmo que o diretor explora nas três (ou quatro) histórias.

Um ícone diegético dessa procura é um farol. O farol, que representa na história a orientação, é aquilo que as três Annes procuram durante sua estadia. O diretor supõe, em sua história, que o Mundo é o que nos faz com que as pessoas percam-se de si próprias. Na busca das Annes pelo farol, elas chegam sempre ao final de uma rua, com uma seta pintada no asfalto voltada à direita. Esse caminho (indicado pelo Mundo) é o caminho oposto ao que leva até o farol. Importante observar que nas histórias, as mesmas Annes que se perdem no caminho (literalmente, à busca do farol) são aquelas que também se perdem na sua vida (como um todo). Se uma das personagens consegue se realizar, é aquela que ignora as indicações do Mundo e consegue alcançar o farol.

Outro personagem interessante na história é o salva-vidas, que surge como contrapeso da história: É alguém que deveria ser o “salvador” da história, mas, na verdade, está à mercê de Anne encontrar-se ou não. No final, é a sorte dos demais que influencia no que acontece consigo próprio, como se, além do Mundo, as pessoas também fossem elementos ativos para que a gente se perca.

A linguagem do diretor é a mesma que ele carrega de seus filmes anteriores: poucos e extensos planos, de câmera parada, que segue os personagens pelo cenário através de tilts, panorâmicas e, inclusive através de zoom in e zoom out – todos movimentos bem cartesianos, limpos e sem tremulações. Ao mesmo tempo em que é sutil, seu cinema mostra-se autoral em uma época onde até Hollywood abriu mão da perfeição e da montagem invisível para cair nos elementos do cinema moderno (câmera na mão, cortes rápidos, detalhes etc.).

Além de ser um filme com uma gama intensa de reflexão, as histórias todas divertem o espectador, abrindo o espaço para uma audiência ampla, desde os famigerados pelos romances narrados a la Amelie Poulain até os amantes do cinema oriental mais carregado de simbologia.

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4 comentários em “Em Outro País – 다른 나라에서

  1. o filme parece ser bem interessante!

    bjksssssssss

  2. Fafá Barbosa
    nov 2012

    Teve ser bem interessante e uma boa dica para exibir no Projeto Cine Clube da ONG onde trabalho. Valeu a dica!

  3. Victor
    nov 2012

    Esse filme parece ser muito interessante.

  4. Pingback: Meus 15 favoritos do Cinema de 2012 « Videocassete | Rebobine Antes de Sair

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