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Reflexões sobre o cinema alternativo

Minha Irmã – L’enfant D’en Haut

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“Minha Irmã” é o segundo longa-metragem de ficção de Ursula Meier, precedido apenas pelo fantástico Home (2008), estrelado por Isabelle Huppert. Apesar de não mostrar-se sob uma filmografia vasta, não há como dizer que a diretora francesa é inexperiente com o trabalho da imagem no cinema. Além de possuir uma delicadeza notável com o trabalho de imagem e de tempo, Ursula mostra-se genial com o trabalho com os atores.

Assim como no primeiro filme, ela toca a temática da família que se transmuta sob os acontecimentos da trama. O filme conta a história de Simon, um garoto de doze anos que vive em um complexo habitacional próximo aos alpes suíços com a sua irmã Louise. Enquanto a irmã não consegue afixar-se em um trabalho e parece estar com diferentes amantes a cada momento, o menino aproveita a temporada de esqui para roubar os turistas da estação e revender os itens entre outras crianças e trabalhadores, no intuito de acumular dinheiro para ajudar a sustentar a casa. O filme segue pautado na relação entre os dois, entre a falta do amor maternal sentido por Simon e a dificuldade de Louise em organizar a sua vida profissional e familiar.

O filme triunfa, sem dúvidas, na interpretação dos atores principais – o garoto Kacey Mottet Klein e Léa Seydoux, no papel da irmã. A direção de atores feita por Ursula Meier é louvável, de forma que conseguimos compreender como o relacionamento entre os dois caminha não através das palavras ditas, mas por meio dos olhares, do tom de voz, do silêncio entre cada palavra dita – um trabalho de tempo sensacional. A ligação entre os dois não explode ou traz exacerbada dramaticidade sem que o ritmo do filme peça isso. É difícil ver a sutileza dessa relação, leve e fria, sem se lembrar da obra dos diretores belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Uma frase dita no filme, que pode ajuda a aproximar a identificação do universo dos filmes dos Dardenne com o filme da diretora francesa é “Não quero dever nada a você, Simon”, que a irmã fala após dizer que irá devolver um dinheiro emprestado pelo irmão – É como se houvesse uma ruptura na ordem natural de uma família, como se relacionamentos pudessem ser enterrados sob questões financeiras e nada além disso importasse. Simon, em vários instantes, parece sentir a falta de um carinho familiar. Ele chega a pagar por carinho, e inicia conversas com turistas desconhecidos de forma arbitrária.

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Outro elemento que desperta a atenção, e que também está relacionado ao trabalho com o tempo, é quando a diretora joga a grande surpresa, o momento de virada do filme, na metade dele, desprezando qualquer manual de roteiro que normalmente posicionaria esse acontecimento entre os dois terços finais do filme. E Ursula continua trabalhando o universo da trama até o final com uma habilidade que não deixa o ritmo do filme destoar em nenhum momento – e ainda que destoasse, muito provavelmente não estaria desqualificando a eficiência da história.

Além disso, há algumas simbologias, ainda que óbvias, que merecem ser notadas, como o lugar onde Simon mora e a estação de esqui onde os turistas endinheirados se divertem. Apesar de serem próximos, Simon mora ao pé da montanha, e para chegar até os turistas, tem que subir muito em um teleférico. Essa simbologia, de quem está embaixo e quem está em cima, deve ser observada também ao desfecho do filme, somando-se a ela a questão do distanciamento humano. Há também o “escritório de Simon”, que é uma cabine de banheiro e “cheira a merda”, nas palavras de um dos personagem, e a dura cena em que Simon é mandado para a sua casa junto com o lixo.

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Violento de forma sutil, poderia ser um termo para resumir a visão da diretora em seus filmes. Apesar de seguir os passos dos irmãos Dardenne em seu estilo, alguns elementos no filme dão singularidade à linguagem diretora. “Minha Irmã”, que concorreu ao Urso de Ouro e recebeu um prêmio especial, é, sem dúvidas um dos melhores filmes do ano que passou.

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2 comentários em “Minha Irmã – L’enfant D’en Haut

  1. Marco Antonio
    jan 2013

    vi o filme agora de pouco e me surpreendeu muito.
    muito bom seu blog, parabéns. segui o link pelo mko.
    Abraços!

  2. Pingback: Meus 15 favoritos do Cinema de 2012 « Videocassete | Rebobine Antes de Sair

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