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Reflexões sobre o cinema alternativo

Meus 15 favoritos do Cinema de 2012

Antes tarde do que nunca, como em todo ano, deixo aqui a lista dos filmes que mais gostei, dentre os lançados no ano passado. Como sempre, vale lembrar que a arte não é algo que pode se medir quantativamente. Logo, essa é uma lista das preferências. Para compor meu gosto, levo em consideração diversas qualidades, porém ainda assim é algo muito pessoal.
De 2012, fiz uma lista com todos os bons filmes que eu tinha assistido e que poderiam estar nesse top, e deu quase 50 títulos. Foi bem dificultoso selecionar apenas alguns. Esse ano teve no cinema o desfecho do cavaleiro das trevas, viagem à Terra Média, limousines, reality shows, retorno aos tempos da Tropicália, escoteiros em plano mirabolante de resgate, pernas amputadas, road movie beatnick pela américa… Enfim. Foram muitos filmes, e por mais que eu ainda pense que esse ano não foi tão genial o cinema, ainda teve filmes para todos os gostos. E segue os meus 15 favoritos:

(Listas anteriores: 20102011)


15º – Os Infratores

John Hillcoat, EUA

John Hillcoat leva-nos de volta à década de 1930, durante a lei seca nos EUA. Seu filme trata da história de três irmãos que, contra todos, contrabandeiam e produzem bebida alcóolica em uma pequena e pacata cidade ainda marcada pela figura do “xerife”. Com um ambiente que remete aos westerns, o diretor tece um filme extremamente violento (e empolgante) e coloca em xeque o verdadeiro significado da palavra “infrator”, quando na américa, todos parecem beber garrafas sentados na mesa da corrupção. Embora Tom Hardy seja o destaque na mídia do filme, e ele esteja brilhante com o seu sotaque caipira e o caráter seco, quem dá um show mesmo são os atores Guy Pearce e Shia LaBeouf, tendo, finalmente, uma chance de mostrar suas qualidades em um filme que não seja pautado por excesso de CGI.        lawless-os-infratores-john-hillcoat

 

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14º – Paraíso: Amor

Ulrich Seidl, Áustria

No primeiro filme de sua pretendida trilogia sobre viagens, Ulrich Seidl demonstra já uma fantástica habilidade em incomodar com a câmera. O plot de Paradies: Liebe gira em torno de uma mulher madura e solteira que vai tirar férias em um resort no Quênia. Tão rápido como a maré avança sobre a areia, a linha divisória entre o lugar paradisíaco e um lugar com fragilidades sociais rompe-se e a personagem principal cai, sem perceber, no universo do turismo sexual. O diretor lança questões como a servidão do negro ao branco, os problemas sociais e o valor monetário do amor em meio a uma narrativa angustiante onde nem sempre pode-se perceber quem é senhor e quem é o escravo.
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13º – Além das Montanhas

Cristian Mungiu, Romênia

O premiado diretor de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, trouxe, em 2012 seu novo filme, vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes, que é a história de duas garotas órfãs que, outrora apaixonadas, reencontram-se no convento onde uma delas dedica a sua vida à obra divina. A outra frustra-se ao descobrir que a amiga enterrou sua paixão sob a fé que agora parece ser o único sentido da sua vida. Assim como no seu filme anterior, temos um forte trabalho em cima daquilo que os personagens procuram esconder da câmera, aquilo que eles guardam para si. Ainda que mantenha um ar introspectivo, há uma explosão de sentimentos conforme a trama avança. Cristian Mungiu traz para o seu trabalho a incógnita que é a validade da ética e dos valores morais diante da fé. O filme é brilhantemente tenso e a atuação de Cosmina Stratan e Cristina Flutur, que lhes rendeu (para ambas) o prêmio de atuação feminina em Cannes, é maravilhoso. Imperdível!
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12º – A Viagem

Andy Wachowski & Lana Wachowski & Tom Tkywer, EUA

Em Corra Lola Corra, Tom Tkywer faz ampliar discussões de um tema simples da pós-modernidade. É absolutamente o oposto feito em Matrix, quando os Wachowski tentam resumir toda a filosofia de Baudrilard em um filme, deixando-a vaga e um tanto falha. Embora eu acredite que outra vez, em Cloud Atlas, os diretores não conseguiram aprofundar-se em  uma questão específica – embora sejam capazes disso – o mérito do filme mantém-se pelo ponto principal que lhe toca: a grande ousadia de sua produção, e em como os 3 diretores acreditaram nele. Numa mescla de seis diferentes histórias, cada história daria um ótimo filme por si só. Mas os diretores não queriam fazer seis filmes de grande público e digeríveis, eles confiaram na ideia central do filme que é de que tudo está conectado no mundo, pelos sentimentos, pelos séculos e pelas pessoas – nem que para isso fosse necessário sacrificar a receptividade do filme. É disso que o Cinema contemporâneo precisa: de ousadia. Os plots do filme são maravilhosos, com enredos fantásticos, ora apaixonantes, ora vibrantes, ora cômicos e ora dramáticos – A quebra da rigidez do gênero traz, outra vez a discussão da existência de um cinema pós-moderno. Além disso, o filme conta com uma direção de arte fantástica, que enche os olhos do espectador com a beleza visual aplicada.cloud-atlas-a-viagem-wachowski-tom-tkywer

 

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11º – Yeralti

Zeki Demikurbuz, Turquia

Baseado no livro de Dostoievsky Notas do Subsolo, Yeralti é um filme sobre os profundos pensamentos e angústias de um homem frustrado com a vida e com suas relações interpessoais. Um aspirante a escritor, com um emprego pífio e modesto, vê um dos colegas ser exaltado pela mídia pela sua brilhante obra literária. Sabendo que seu colega roubou o livro de outra pessoa, o homem não consegue manter sua alma em paz e passa a cuspir, ao longo do filme, suas observações acerca da natureza humana e da honestidade. O filme fragmenta-se nessas observações, levando o espectador para o lado do personagem, que não consegue a atenção de ninguém ao seu redor. O diretor consegue exaurir cada sentimento de ódio e fracasso da alma do personagem, e o ator Engin Gunaydin convence de forma fantástica o público, colaborando com mais um filme que reforça a habilidade do cinema do leste europeu em trabalhar filmes introspectivos.
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10º – A Parte dos Anjos

Ken Loach, Reino Unido

Quatro jovens conhecem-se em trabalho comunitário e passam, nas horas vagas a estudar uísques com o incentivo do seu tutor. Embora nenhum deles esteja realmente interessado em uma vida de crimes e querem, o quanto antes, ficarem livre das obrigações penais e terem a chance de conseguir uma boa vida, uma oportunidade torna-se sedutora para cada um deles: Está para ser leiloado um dos mais caros barris de uísque. Uma única garrafa que conseguirem pode mudar a vida deles. Ken Loach, que sempre tem usado o humor (ou por vezes, o puro drama) para discutir problemas sociais na europa, em parceria com seu roteirista de longa data Paul Laverty, faz de The Angel’s Share uma comédia brilhante e dinâmica, que leva ao espectador à questão: Quais são as verdadeiras oportunidades para quem está embaixo?  As classes mais baixas conseguem o suficiente para sobreviver em meio à honestidade? Colocando esse panorama de uma realidade de pessoas pobres e sem emprego na europa, em contraste a uma sociedade que se propõe a pagar centenas de milhares de dólares numa garrafa de bebida alcóolica, Ken Loach consegue, mais uma vez, com ironia e bom humor, plantar uma semente de necessidade de mudança.
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9º – Argo

Ben Affleck, EUA

Um dos favoritos ao Oscar e um dos mais premiados filmes em hollywood nesse ano, Argo traz à tona uma operação da CIA (o filme é baseado em fatos reais) que consistia em resgatar seis diplomatas americanos do Irã, enquanto esse encontra-se em fervorosa revolução. Apesar do filme político exaltar (mais uma vez) a bandeira americana, essa não foi a intenção primária do diretor: Ele tenta, inclusive, em duas ou três cenas, organizar históricamente os fatos de forma em que os EUA caiam também sob o papel de vilão. No entanto, o que chama a atenção nesse filme é a habilidade que Ben Affleck ganhou, tão precocemente (visto que há apenas outros dois filmes dirigidos pelo ator, nos quais essas habilidades não se fazem presentes) em montar um thriller de ação sem o uso de cenas explosivas e que trabalhe, sobretudo, a tensão e a expectativa no espectador. Por enquanto, ele consegue esses resultados através da montagem fragmentada e da trilha sonora, mas já é uma grande evolução em relação ao Ben Affleck de Gone Baby Gone, por exemplo.
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8º – Reality

Matteo Garrone, Itália

Luciano, um modesto e humilde peixeiro, por insistência da família, inscreve-se para a próxima edição do Grande Fratello (O Big Brother, na Itália). A grande expectativa criada em torno da aproximação e da alienação do programa levam o peixeiro a cair, cada vez mais fundo, em suas fantasias de estar participando do programa. Não é mais apenas uma oportunidade de mudar de vida: agora passa a ser uma necessidade de ser uma estrela. Com bom humor, Matteo Garrone (amplamente premiado pelo seu filme anterior – Gomorra) questiona o que é real e o que é fantasia em um mundo onde a realidade torna-se cada vez mais um grande espetáculo, sem tentar reprimir, de forma infantil, as necessidades de um público adicto a Realitys Shows do tipo. Reality, que ganhou o segundo mais importante prêmio do Festival de Cannes, é o tipo de filme extremamente divertido que tem muito a dizer, se você não se alienar totalmente com o tom jocoso da trama.
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7º – Amor

Michael Haneke, França

Vencedor da Palma de Ouro no ano de 2012 e favorito para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Amour é um filme singelo por um lado e duro por outro, que acompanha o cotidiano de um casal de idosos que passou a vida inteira juntos, quando, subitamente, a esposa torna-se praticamente inválida em totalidade. Michael Haneke deixa de lado a sua estética de thrillers adotada nos últimos anos (Caché, A Fita Branca), para resgatar uma montagem fria e dura, bastante pautada no vazio como forma de expressão, muito presente no início de sua carreira (em filmes como O Sétimo Continente e O Vídeo de Benny). Amour volta com esse ar do diretor de uma forma tão polêmica que tornou-se imediatamente um filme incompreendido por boa parte do grande público, que questiona onde está o amor do personagem quando ele parece fraquejar. O que se pode dizer é que o amor está presente ao longo do filme todo, atingindo seu ápice ao final. Apenas o amor aos olhos daquele que ama é compreensível de qualquer forma. Um filme que fica por dias e dias na sua cabeça. Fantástico e genial, é Haneke em sua melhor forma!
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6º – Tabu

Miguel Gomes, Portugal

Se há um filme que pode ser qualificado como um romance literário jogado à tela como cinema, esse filme é Tabu, do diretor português Miguel Gomes. Ele não é, sobretudo, uma afronta aos defensores do cinema como uma arte singular, nem uma forma perfeita de adaptação literária, justamente por ser subversivo e distanciar-se do caráter clássico e limpo desses estilos mencionados. É um filme que, em momento algum, menospreza o valor da imagem, e por mais “verborrágico” que pareça ser, a narrativa é claramente cinematográfica, aproximando-se (embora isso pareça antagônico) de uma estética do cinema mudo – pois não é o diegético que é dito, mas sim aquilo que se sente. Com uso da fotografia em preto e branco, Miguel Gomes traça duas histórias, a do presente e a do passado, sobre um amor proibido e perdido – um tabu, enterrado sob o tempo. O relato é sincero e mostra-se por vezes sob um labirinto (que é o toque que aproxima-o do romance literário) que reforça a sua ideoniedade. Tabu é uma das poucas experiências únicas que o cinema ofereceu no ano de 2012, e por isso, é de necessidade assistí-lo.
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5º – O Som ao Redor

Kleber Mendonça Filho, Brasil

O filme nacional mais “badalado” do ano é o filme de estreia do crítico de cinema Kleber Mendonça Filho na experiência com longas metragens. Infelizmente, é uma obra prima. É o tipo de filme que provavelmente não veremos se repetir nas mãos do autor, e é fantástico. É também uma prova de que a concentração de gênios do cinema brasileiro dos últimos anos está nas regiões norte e nordeste do país. O Som ao Redor é um filme cujo título explica-o por si próprio: é a relação dos indivíduos de um bairro ilustrada, no filme pelo som. O tempo todo, o som latente: os gritos do vizinho, a bola no portão, o cachorro irritante, o aspirador, o carro, as buzinas: A multiplicidade pernambucana que outrora Cláudio Assis usara em cores e faces, Kleber Mendonça Filho usa, aqui, em sons e atitudes. Várias histórias em multiplot cruzam-se e distanciam-se ao longo do filme, a fim de criar um retrato dessa massa que se explode em diversas direções quando do mangue se faz cidade. E o diretor não precisa ir buscar na bizarrice ou na singularidade seus personagens: Todos eles são de personalidades simples e perenes, pouco efusivas, mas que conseguem mostrar mil faces em um só lugar, seja na discussão de um porteiro preguiçoso numa reunião de condomínio ou seja numa briga de mulheres por televisores de LCD. Sem dúvidas, um dos melhores filmes brasileiros pós retomada.
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4º – Em Outro País

Sang-soo Hong, Coréia do Sul

Já discuti o último filme de Sang-soo Hong aqui no blog nesse post. O filme é a história de Anne (ou melhor, de três diferentes Annes), mulheres francesas que estão, temporariamente, na Coréia do Sul, cada uma em busca de algo. Apenas as Annes são diferentes, embora sejam todas interpretadas brilhantemente por Isabelle Hupert. Os demais personagens mantém-se em seus devidos corpos e personalidades ao longo das três histórias, embora eles não relacionem nenhuma delas com outra. Enquanto as Annes estão prestes a afundar de vez suas vidas, há sempre a figura do salva-vidas, que nas três situações, tenta ajudá-la, embora não a compreenda em nenhum momento. Com uma câmera parada que dá preferência a longos planos cujos únicos movimentos se dão no zoom ou na cabeça do tripé, Song-soo Hong faz um filme sutil e autoral, que agrada tanto pelo enredo bem elaborado quanto pela reflexão trabalhada nos símbolos do filme (característica forte do cinema asiático).
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3º – Minha Irmã

Ursula Meier, Suíça

Esse filme também já esteve aqui no blog, nesse post. A história é sobre um garoto, que para sobreviver com a irmã – que tem dificuldades em fixar-se em algum emprego, realiza pequenos furtos em uma estação de ski que fica próximo à sua casa. Apesar da presença da irmã, o garoto parece estar o tempo todo muito só, sob a deficiência de um amor mais maternal. Ursula Meier, que já chamou a atenção com seu primeiro filme Home, mostra um avanço incontenstável em seu cinema, distanciando-se da cômica fantasia para atingir, com louvor, a dramática realidade. É impossível assistir Minha Irmã sem perceber uma aproximação com o cinema dos Irmãos Dardenne, não só pela temática das fragilidades familiares, como também pela estética fria e leve, que cai abruptamente para o agressivo, e pela forma como os personagens são trabalhados para a câmera: Eles não querem cuspir seus sentimentos deliberadamente através do verbal – A todo instante parece esconderem da tela suas intenções. O filme, que recebeu um prêmio especial no Festival de Berlim do ano passado, é, recomendado para quem espera ver surgir uma nova cineasta a altura dos grandes artistas contemporâneos do cinema.
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2º – Cosmópolis

David Cronemberg, EUA

Assim como tantos outros filmes de Cronenberg, esse é uma fábula. Em cada etapa do filme, num ritmo e numa montagem quase onírica, desvendamos um pouco da visão de Cronenberg sobre o estado econômico do mundo. Embora seja uma ficção política, o filme mostra-se como um espelho da realidade atual de tantos países: Informação, dinheiro, ratos como moedas… Tudo parece caminhar para um questionamento da funcionalibilidade do capitalismo numa cultura que caminha nos frágeis passos de uma sociedade cibernética que discorda da realidade em que vive. No filme, Cronemberg tenta ilustrar um capitalismo tão fraco que pode ser derrubado por “uma pausa entre duas palavras de um homem, que talvez só quisesse respirar” – Ao colocar o filme do diretor em paralelo com a velocidade da informação anexada à política cibernética, conseguimos ver o quão próximo do real o diretor aproxima-se – e através de uma fábula! O plot do filme não poderia ser mais simples: um jovem que outrora teve sucesso no seu capital, mas que agora, vendo seu império ruir, questiona seu sistema, seu sucesso e suas ideias (talvez como uma forma de aceitar, com orgulho, sua queda – ou talvez sejam dúvidas legítimas), enquanto cruza a cidade em sua limousine em busca do corte de cabelo ideal. Extremamente inseguro, ele foge, abraçando sua morte. A atuação de Robert Pattinson cumpre o que o filme pede – ele está acima de reprovações e mostra-se muito maduro para quem o subjulga pelos seus personagens anteriores de filmes de fantasia como Harry Potter ou a saga Crepúsculo. Frio e calculista, o ator atinge o verdadeiro espírito do personagem: Eric Packer não é o tipo de pessoa que se dilaceraria emocionalmente em representações dramáticas. Nem apenas de Juliette Binoche e Paul Giamatti vive o cinema, cada ator tem seu encaixe perfeito, e pra mim, Pattinson funciona no papel do personagem. Entretanto, devo reconhecer que muito do filme passou por mim sem que eu pudesse captá-lo. O filme tem muito a dizer, muito que eu não colhi da primeira vez que vi. Precisarei ver mais algumas vezes para tentar extrair mais coisas. Para mim, o filme que se passa nessa limousine seria o melhor do ano, se não fosse por outra limousine, que cruzou a rua à sua frente:
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1º – Holy Motors

Leos Carax, França

E o que falar de Holy Motors? Com um ar que parece misturar David Lynch com Luis Buñuel, o filme conta a sua história em uma limousine, de um homem que executa várias tarefas ao longo do dia. Em cada tarefa, ele personifica-se de uma forma e sai à rua, agindo tal como o personagem personificado: Uma senhora pedindo esmolas, um pai de família irritadiço que vai buscar a filha numa festa, um maníaco do submundo que sequestra uma modelo e por aí vai… Em sua forma, o filme exibe inúmeros filmes. E há quem reclamasse que Leos Carax estava há muito tempo parado nos longas (mais de uma década, se desconsiderarmos seu segmento pouco mais de meia-hora em Tokyo!). Pois aí está, seria como se o diretor gritasse: “Que filmes vocês querem que eu faça? Pois faço todos os que são feitos hoje em dia!”. Mas o que diabos Leos Carax, afinal, quer com isso?
O próprio filme sugere que “a beleza do ato está nos olhos de quem assiste”, lançando o pensamento “Tarkovskyano” do desapego pela busca do sentido para o apego ao sensorial visual (e auditivo) do espectador. O filme, sem dúvidas, pode parecer estranho e louco, mas há uma infinidade de possibilidades e sentidos que pode-se agregar a ele.
Para mim, Holy Motors não é apenas um filme sobre identidades humanas, tampouco apenas um retrato subversivo de como o mundo, que se transfigura de forma tão veloz, faz com que percamos nossas personalidades para que sejamos moldados àquilo (“um trabalho”) que necessitamos executar. Holy Motors é, para mim, acima disso tudo, um filme sobre a condição da arte do cinema como um todo. Não apenas pelas obviedades visuais que o filme apresenta (o personagem saindo, na cena inicial, em direção a platéia diante da grande tela; o interlúdio que é uma exibição diegética de uma película ou o grande cão – ou melhor seria o termo fera – que desfila pelos corredores do cinema). Leos Carax questiona em seu filme, de uma forma muito original, a singularidade da arte e do cinema no mundo contemporâneo. E no entanto, isso retoma a posição anterior, pois se a arte, que deve funcionar como um espelho da humanidade (ou do mundo, se for pensar por um viés mais taoísta), está em um desespero de não conseguir assumir uma identidade ao mesmo tempo em que não atinge a singularidade, não seria ela resultante de um homem contemporâneo que no desespero de fugir de si próprio, artificializa-se como outras personas para dar sentido à sua existência, sem perceber que ele está caindo em um círculo vicioso de precisar existir em uma nova forma a cada instante?
Enfim, o filme abrange uma centena de possíveis discussões. Fantástico, instigante e divertido, Holy Motors é, para mim, o melhor filme do ano de 2012 e um dos melhores filmes dos últimos anos. E que 2013 venha com filmes ainda melhores!
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Antonio Lopes Júnior (Caju)

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2 comentários em “Meus 15 favoritos do Cinema de 2012

  1. Rodrigo Lara
    fev 2013

    Muito boa a Lista!
    Eu faço sempre a lista dos 10 melhores do ano (pós Oscar e até dezembro). Eis a minha relação:

    1 Pietà (Corréia do Sul) Kim Ki-Duk
    2 No (Chile) Pablo Larraín
    3 Amour (Áustria) Michael Haneke
    4 O Impossível (Espanha) Juan Antonio Bayona
    5 A Bela que Dorme (Itália) Marco Bellocchio
    6 Moonrise Kingdom (EUA) Wes Anderson
    7 Antiviral (Canadá) Brandon Cronenberg
    8 O Peso da Culpa (Alemanha) Lars Gunnar Lotz
    9 A Caça (Dinamarca) Thomas Vinterberg
    10 Argo (EUA) Bem Afleck

    • Muito bacana, Rodrigo! Realmente, Pietà é sensacional, também foi um dos meus favoritos! Não consegui assistir A Caça, do Vinterberg, tô muito a fim.

      Abraços!

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